Lições de um chef da Le Cordon Bleu

agosto 29, 2009

Denis Sabot, o 'De Niro' da Le Cordon Bleu

Denis Sabot, o 'De Niro' da Le Cordon Bleu

Na chuvosa tarde do último domingo (23) tive a oportunidade de assistir a uma aula do chef francês Denis Sabot, um dos professores da tradicional escola francesa de gastronomia Le Cordon Bleu, durante a segunda edição do evento Grandes Chefs Veja São Paulo.

Depois de uma voltinha pelo evento, que contava com stands de importadores de vinhos, chocolates, geléias e temperos, Cecília e eu nos acomodamos para anotar e provar os ensinamentos do bem-humorado Sabot, durante duas horas.

Antes de começar, o chef nos deu uma aula de história da culinária, citando o famoso banqueteiro François Vatel – interpretado no cinema por Gérard Depardieu – e o chef Auguste Escoffier, que criou a culinária francesa moderna e também se baseou em Antoine Carême (ótima leitura: “Carême, cozinheiro dos reis”). Escoffier organizou um importante jantar, servido em cinco países, ao mesmo tempo. “E ele não tinha internet e nem fax”, comentou Sabot.

A extrema organização da cozinha francesa – que exige, em média, de 150 a 200 pessoas – suas técnicas e complexidade a tornaram reconhecida no mundo todo. “Na ausência de um embaixador da França é o chef que representa o país”, disse o chef, que também destacou Paul Bocuse, representante da cozinha clássica francesa até hoje.

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A aula foi composta de dois pratos: Salmão marinado como arenque, salada de batata morna e flores comestíveis; e Carré de cordeiro em crosta de menta, batata Darphin, creme brulée de ervilhas (com crosta de pistache) e compota de fico e tomates. Pudemos provar um pouquinho ao final de cada preparo e os pratos estavam espetaculares.

E nós, pobres mortais, podemos preparar as receitas em casa? Com muita paciência e muito amor, sim, é possível. “É preciso ter amor. Os chefs passam muito tempo na cozinha. Por isso, muitos deles são solteiros”, afirmou Sabot brincando que esperava cozinhar para a “noiva brasileira”, que ainda não tinha.

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No caso do salmão, por exemplo, você precisa começar o preparo na terça para o jantar de sábado. Ele deve ficar três dias na salmoura, ser lavado e depois mergulhado em azeite extra virgem com temperos por um período de 24 a 48 horas. E é melhor comprar o azeite no atacado porque depois ele não pode ser reaproveitado. “O azeite pode fermentar e, além disso, não é higiênico” disse o chef.

As batatas vinagrete são muito fáceis de fazer. Basta cozinhá-las em cubinhos (começando pela água fria) e preparar o vinagrete nesta ordem – sal, pimenta do reino, duas xícaras de vinagre (use tipos variados. O chef usou um de framboesa), depois adicione temperos e três xícaras de azeite. Bata bem com o fuê, escorra as batatas e misture-as ao vinagrete. É um delicioso acompanhamento para peixes.

Outro acompanhamento bem bacana é o ‘tian’, uma guarnição popular na culinária francesa, que geralmente é feito com beringela, tomates e abobrinha. Esta versão levou figos, cortados em rodelas e tomates cereja refogados em azeite e temperados com sal, pimenta, tomilho e alecrim. Uma delícia!

Confira algumas lições do chef da Le Cordon Bleu:

  • “Você deve provar, cheirar ou tocar tudo na cozinha (e lavar as mãos) a toda hora. Por isso a maioria de nós tem essa forma, parecida com a do Ronaldo.”
  • “Para não queimar a língua, use primeiro os dentes na hora de provar a comida.”
  • “Use sal grosso para cozinhar e sal fino para finalizar.”
  • “Inicie o cozimento de alimentos com amido (como batatas, feijão e lentilha) em água fria. Os demais em água fervente.”
  • “O óleo sempre vem em último lugar em um vinagrete, com a proporção de três volumes de óleo para dois de vinagre. Se usar balsâmico, que é muito ácido, reduza para uma xícara de vinagre.”
  • “Não compre produtos em latas amassadas. O risco de contaminação é muito alto. E se for contaminado, tome a última pinga e fume o último charuto, porque não há salvação.”
  • “O forno está quebrado [pecado em um evento deste tipo] então vamos usar o Banho Maria para cozinhar o creme brulée.” Dica: antes de colocar a água, Sabot forrou o fundo da assadeira com papel alumínio, que ajuda a espalhar o calor e impede que a água entre no recipiente. Além isso, cada potinho com o creme brulée de ervilhas foi tampado com alumínio. Deu muito certo.
  • “Use ervilhas congeladas. Elas são pré-cozidas e bem mais macias do que as ervilhas frescas (…). É a única coisa boa que os americanos inventaram.”
  • “Para conservar trufas você pode guardá-las embaladas a vácuo no congelador ou colocá-las em um pote de arroz arbóreo hermeticamente fechado. O arroz ficará com o perfume das trufas.”
  • “Alguns restaurantes mergulham azeitonas pretas no vinho do Porto para imitar trufas”
  • [A “sogra” era a figura escolhida por Sabot para ressaltar tudo o que não deve ser feito na cozinha]. “Os livros da escola francesa mostram o ponto crítico da receita, onde ela pode dar errado. Por isso, a sogra queima tudo.”
  • “Para ser chef não bastam três meses na escola, mas 15 anos de prática.”

One Response to “Lições de um chef da Le Cordon Bleu”

  1. Avatar de PH PH Says:

    É por isso que eu vivia perdendo minhas trufas. O meu pote de “arroz arbóreo hermeticamente fechado” não era de arroz, nem arbóreo e muito menos hermeticamente fechado. Agora vai! 🙂

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