Você acredita do termômetro?
dezembro 30, 2006

Nunca vou me esquecer da primeira vez que minha mãe comprou o peru Sadia já temperado que vinha com um termômetro para indicar quando o assado estava pronto.
Acredito que tenha sido em meados da década de 80. Foi uma sensação, um símbolo da mudança de comportamento da mulher moderna, que trabalhava fora, cuidava dos filhos e ainda tinha de se encumbir do preparo da ceia perfeita.
O termômetro do peru vinha para salvar as mulheres multitarefas e hipnotizar as crianças em frente à espera do momento mágico em que a pontinha vermelha subiria. Eu, obviamente, era uma delas.
“Você acredita no termômetro do peru?”, perguntei, neste Natal, a Marisa, minha mãe, a mulher moderna e prática, que vivia dando ‘pito’ na filha por ficar no calor da cozinha a espera do grande truque. “Não acredito filha”, respondeu agitada, enquanto terminava os preparativos para colocar a ave – com termômetro – no forno.
Em todos estes anos, Marisa não deu muita bola para o termômetro. É mais uma referência. O que vale, segundo ela, é “um bom vinhadalho – bastante alho, vinho branco, sal e ervas -, pelo menos duas horas de forno com a parte brilhante do alumínio virada para dentro, depois você tira para dourar, mas não pode deixar ficar seco”. Pura intuição culinária.
Pouca coisa mudou desde a invenção do termômetro do peru e do ‘ave Chester’. E, sinceramente, acho que alguns segredos culinários, que sobrevivem por gerações, não se abalam com a tecnologia. Talvez porque nada supere amor, muita paciência, sensibilidade e o famoso ‘olhômetro’.
Confesso que, uma hora depois, passei pela cozinha e acendi a luz do forno para ver se, naquele exato momento, o termômetro se manifestava. Tradição é tradição.
Feijão maravilha
novembro 15, 2006

Concordo com As Frenéticas e com os nutricionistas: Feijão tem gosto de festa… é melhor e mal não faz. Segundo uma tabela publicada na Folha Equilíbrio, o feijão preto tem mais proteínas, fibras, ferro e outros minerais do que as variedades carioquinha ou fradinho. Ele também tem mais calorias – 117 a porção de 100 gramas contra 78 do feijão carioca – mas essa parte a gente pula… pula bastante, que a caloria vai embora.
Ficou com vontade de fazer um feijãozinho? A versão “Braun&Beans Express” fica de molho de um dia para o outro e depois passa 20 minutos na pressão antes de entrar na panela, que está esperando com muito alho e cebola refogados no azeite. Uma folha de louro, sal e mais dez minutinhos.
No entanto, para preservar mais os nutrientes do feijão maravilha, elimine a pressa e a pressão. Aqui vai a dica do brother Pedro, aluno do curso com nome de seriado da GNT Objetivo Chef: coe a água do molho em um pano de prato fino bem limpinho e reserve. Faça um refogado na gordura do bacon (ou com um pouquinho de óleo), cebola e alho. Refogue o feijão e depois adicione o caldo – se necessário, complete com mais água para cobrir o feijão. Deixe em fogo brando por uma hora, com a panela tampada, e mais 30 minutos ou até chegar ao ponto e voilá! Se quiser, adicione uma folha seca de louro durante o cozimento. Para quem gosta, Pedro indica um pouquinho de coentro picado no final.
Agora o conselho do querido Daniel, que cozinha divinamente em panelas Le Creuset: para evitar o desconforto provocado após um bom prato de feijão, outra dica boa para a sua saúde e para a de quem estiver por perto é retirar, com uma colher, a espuma que vai se formando durante o cozimento. Os íntimos agradecem.
E qual seria a razão para que o feijão preto seja o trivial dos cariocas e que o carioca seja o dos paulistas? Cultura? Logística? Calorias? Lancei a questão em uma mesa de bar para os amigos cariocas Adri e Cláudio e só ficamos com mais vontade de comer feijão, feijão, feijão. Que maravilha.
Saída pela direita…
outubro 6, 2006
Se você detesta brócolis, a ciência acaba lhe dar a melhor desculpa para driblar sua tia diante daquele prato de brócolis cozido que ela colocou na sua frente. Segundo pesquisadores da Filadélfia, o problema é genético.
Em um artigo da revista Current Biology de setembro, as pessoas que possuem um gene hTAS2R38 (sensível a brócolis) duplicado sentem um sabor muito mais amargo ao comer este vegetal do que outras.
Voltando à cena em que a vítima está diante do prato lotado de brócolis e dos olhares ansiosos de seus familiares…
A primeira saída é explicar todo o processo da pesquisa em detalhes até que chegue a sobremesa. Outra opção ainda mais efetiva é distribuir cópias do artigo aos familiares e dar cabo do brócolis enquanto eles se divertem com a leitura. A terceira opção, que mais me agrada, é dizer a verdade: “sou genéticamente evoluído e desenvolvi uma alergia grave a esse ser híbrido vegetal-alienígena, que está invadindo a Terra ao ser ingerido, diariamente, em todos os lares do mundo”.
Obviamente, quem me enviou este artigo detesta brócolis e todos os outros vegetais da natureza, exceto alface… e só crespa. Esse tipo de excentricidade alimentar – também conhecida como ‘frescura’ ou ‘falta de uns bons tabefes’ – a ciência certamante deveria estudar. Aguardo estudos sobre a teoria de Darwin e o feijão com arroz.
Em tempo: adoro brócolis. Dizem que faz muito bem para o estômago. Refogada com alho, na manteiga e com um pouquinho de shoyo fica sensacional. Me deu fome. Vou almoçar.
Pãodcast
julho 31, 2006
Quem gosta de cozinhar e tem iPod, o famoso (e caro) player da Apple, ganhou uma mãozinha de Olivier Anquier, o famoso (e belo) chef e padeiro francês.
O Programa do Olivier, transmitido na internet gratuitamente desde 2004, ganhou uma versão para o tocador portátil. Isso significa que você pode (se tiver iPod) levar o Olivier para te alegrar na espera de uma reunião entendiante, para te acompanhar na cozinha, para tomar um café…
E se você não tem iPod, divirta-se no computador mesmo com a didática, o sotaque e o jeito ‘lá em casa’ do chef. O site é recheado de outras dicas e mais de 400 receitas.
No programa de julho, Olivier prepara ‘una sop di cebol gratinad’. A receita é super simples, barata e você fica muito bem na fita. Salgado é só o preço das panelinhas maravilhosas da La Grande Maison que ele usa para servir a sopinha.
Para beber sem estourar o orçamento, indico os vinhos franceses Figaro Rouge 2002 (US$ 10,90 na Mistral) ou Cave de Ladac (R$ 19) no Pão de Açúcar. Voilá… lá em casa.
A pasta do mundo é nossa…
julho 11, 2006
Achei que já havia desistido de comer macarronada há muitos anos. Até então, minha lembrança de macarronada de domingo era acordar de ressaca, ir para a cozinha, encontrar a mesa posta com a pasta, o frango assado, a maionese de legumes e meus pais me olhando de cara feia.
Também achei que nunca fosse torcer pra Itália em uma Copa. Não que eu tenha muitos traumas da Copa de 82. Na verdade, não tenho nenhum. O que restou na minha memória foi somente um delicioso sorvete de creme e chocolate promocional, da Gelatto, vendido em uma bolinha de futebol de plástico marrom, que eu não parava de colecionar.
No último domingo, enquanto a Azurra entrava em campo, um quadrado mágico dominou a cozinha para completar o clássico da final: macarronada com bracciola. Alê, no molho, Pedro, na massa, Gi (na foto com a massa) e Deca fazendo a cobertura. Partida memorável.
Receita de família, o molho de tomates ‘de verdade’ com bracciolas recheadas de azeitonas pretas e bacon, estava espetacular – um dos melhores que já provei. A massa feita em casa com farinha de semolina e cortada na hora ficou incrivelmente leve. Barilla que se cuide.
Completando o menu campeão, saborosas batatas assadas com bacon* – receita da avó do Alê. Tutti perfectto. É uma pena que, ao contrário da macarronada da ressaca, essa não se repete todo domingo.
*Como eu tive de voltar ao mercado para trocar uma bandeja de toucinho por bacon, reforço aqui que a regra é clara: toucinho é a ‘gordura do porco, subjacente à pele, com o respectivo couro’. Bacon é a mesma coisa só que em versão defumada. E tanto ‘toucinho’ como ‘toicinho’ estão no Aurélio. Fale a gosto.




