Surpresas de Almagro

novembro 7, 2009

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Entrada do charmoso hotel-boutique Racó de Buenos Aires, na tranquila rua Yapeyú

Embora não estivesse a dois passos do centro de Buenos Aires, encontrei uma espécie de paraíso no bairro de Almagro, uma região residencial em torno da rua de comércio Rivadavia, que traz ótimas surpresas.

A escolha começou pelo hotel Racó de Buenos Aires, que descobrimos pelo Venere.com. Nos apaixonamos logo de cara pelo antigo casarão portenho construído em 1870, todo reformado e estiloso que vimos via web e que era ainda mais bacana pessoalmente.

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Casarão de 1870 foi modernizado, mas manteve alguns toques retrô

Após consultarmos os reviews no Trip Advisor não tivemos dúvida: decidimos ficar cinco dias em um lugar onde as pessoas moram, estudam, vão ao mercado e vivem a vida. A vista do quarto bem decorado, limpo e que devia ter uns quatro metros de pé direito, era a Basílica de San Carlos Borromeo, que deixou de recordação a melodia dos sinos das 19h.

O café da manhã muito gostoso (salada de frutas, pães variados, suco, café e uma geléia de damasco ótima) podia ser servido em qualquer ambiente da casa ou mesmo no quarto, mas o melhor lugar foi o jardim interno (da foto).

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Café-da-manhã no jardim do hotel; sossego e ótimo atendimento

O atendimento extremamente atencioso e simpático dos proprietários, o casal Julián e Vanesa, a tranquilidade, o ambiente e a organização do lugar valeram cada centavo da diária de 90 dólares, nos cinco dias em que ‘moramos’ na rua Yapeyu (“Chapechu” para os portenhos).

No bairro, entre edifícios residenciais, todos com sacada, e três colégios católicos pelos quais passávamos diariamente, fomos explorando Almagro. Aqui vão algumas dicas de lugares para comer, beber e comprar vinhos, todos próximos à estação Castro Barros, na linha azul do velho metrô.

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Confeitaria Las Violetas: patrimônio histórico de Buenos Aires como o Café Tortoni

Las Violetas
Assim como o obrigatório Café Tortoni [trouxe uma caneca de lá para minha coleção], esta confeitaria que completou 125 anos em setembro, também é patrimônio histórico da cidade. Passe por lá para tomar um café expresso cortado (nosso ‘pingado’), que já vem com dois docinhos.

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Café expresso 'cortado' já vem com docinhos

Sem saber deste detalhe, pedi um pedacinho de bolo com pêssegos, chantilly e recheio de doce de leite – o ‘dulce onipresente’ da Argentina.

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'Pedacinho' de bolo com pêssego, chantily e dulce de leche dá para três

O bolo estava ótimo, mas a fatia dava para três. Como comentei no post sobre as carnes, os portenhos ignoram o conceito de porções individuais. Mesmo com toda a minha gula individual não dei conta do pedaço.

El Boliche de Roberto
Neste boteco antigo, aberto como armazém de bebidas em 1894 em uma esquina na Plaza Almagro (Bulnes com Juan D. Perón), pratica-se o esporte de tomar cerveja com os amigos.

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Boteco de verdade dos locais para tomar uma gelada, jogar conversa fora e ouvir 'tango de raíz' ao vivo

Chegue ao “Lo de Roberto” por volta das 22h30 para garantir uma mesa no pequeno salão, beliscar uns acepipes e esperar pelo ‘tango de raiz’, que rola ao vivo depois das 23h30. O lugar precioso, que me foi indicado pelos amigos Roger e Pedro, é dos portenhos. Dexter e eu éramos os únicos forasteiros naquela noite, mas fizemos uns amigos ocasionais na mesa de jovens estudantes de filosofia ao lado da nossa. Perguntaram se Bonito (MS) era um lugar bacana no Brasil, se éramos de esquerda e depois socializaram nossa porção de salame, queijo e azeitonas.

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Isenbeck gelada (15 pesos) e amedoim cortesia

Só pequei por ser turista de primeira viagem: cheguei muito cedo e não aguentei até o tango. Além disso, estava sem trocado e o lugar não é do tipo que aceita cartões, mas essa parte foi facilmente resolvida com mais um litro da saborosa Isenbeck, bem gelada, por apenas 15 pesos.

Kalimnos
Beber e comprar vinhos são recomendações expressas a quem visita Buenos Aires – já reservei espaço na mala e segui a dica do Alê Scaglia para comprar o Saint Felicien, da bodega Catena Zapata (46 pesos ou 23 reais).

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Bons vinhos para trazer na mala, embutidos e iguarias no empório Kalimnos

Para minha alegria, logo na saída da estação Castro Barros está o Kalimnos, um empório muito bacana, que oferece uma grande variedade de vinhos a preços ótimos – comprei também um Angelica Zapata por 110 pesos -, além de cervejas artesanais, doces, enlatados e frios interessantes.

O presunto na brasa deu água na boca, mas não rola trazer. Uma boa opção é comprar os frios por lá, uma garrafa de vinho e fazer um lanche bacana. Essa fica para a próxima viagem.

Só para fechar, mais três dicas rápidas:

Prove um ‘helado’
O sorvete mais indicado é o da rede Freddo, que vi no bairro da Recoleta e no shopping Galerias Pacífico, na ‘Calle Florida’, a rua das compras no centro. Foi lá que topei com uma sorveteria com cara de tradicional, a Via Flaminia (Rua Florida, 121). Me despedi de Buenos Aires com um excelente sorvete artesanal de creme com amêndoas inteiras e doce de leite com flocos de chocolate.

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Delicioso 'helado' do Via Flaminia

Abuela Goye
Traga pelo menos uma caixa desse alfajor na mala. Isso se resistir aos potes de doce de leite e chocolates vendidos na loja da Rua Florida. Quem me apresentou essa delícia da Patagônia Argentina foi a Rê Mesquita e serei eternamente agradecida. Já detonei uns quatro com cobertura de chocolate meio-amargo aqui em casa. “Epetacular”.

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Abuela Goye: alfajores sensacionais da Patagônia Argentina

Don Carlos, ‘el poderoso chefón’
Quando for visitar a Bombonera, em La Boca, leve dinheiro na carteira para garantir o almoço no Don Carlos (Brandsen, esquina com Del Valle Iberlucea. Tel.: 4362-2433) um restaurante pequeno e familiar, ao lado do Estádio da Bombonera. Eles não têm cardápio. Basta pagar 75 pesos por pessoa e ir experimentando as massas, carnes e outros pratos preparados pelo senhor Carlos e servidos por sua filha.

O lugar foi indicado por um argentino que fez um guia ótimo da cidade (tenho por e-mail para quem desejar). Chegando lá soube que também é o restaurante favorito de Francis Ford Coppolla, em Buenos Aires. A filha do Don Carlos, muito simpática, me mostrou a foto dele, em um porta-retratos no balcão. Pena que estava ‘sin plata’ suficiente e eles não aceitam cartão. O poderoso chefón, Don Carlos, também vai ficar para a próxima.

¡Gracias!
Muito obrigada aos queridos Cecília, Ciça, Fabi, Alejandre, Marina, Gui, Rê e Henrique, Rô Caetano, Pati,  Nando, Afonso, Thiane, Roger e ‘Predo’, que me passaram dicas ótimas da cidade. Muchas gracias aos companheiros de gastronomia (Clau Midori, Let, Ana, Tatu, Leandro, Luiz Ricardo, Minervino, Júlia e Lu Betelson). Estou certa de que Buenos Aires merece muitas degustações.

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Meia garrafa de Fabre Montmayou no Cabaña Las Lilas: bom vinho, mas serviço lento

Se for a Buenos Aires, você tem de comer carne – a não ser que seja vegetariano, o que deve ser considerado um crime pelos portenhos – beber vinho e viver tango.

Basta sentir o aroma de churrasco, que paira pela cidade na hora do almoço, para ser conduzido a uma das ótimas opções de ‘parrilla’ da cidade.

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Couvert no estilo Rubayat do Cabaña Las Lilas

Aqui vão duas dicas sem erro: o Cabaña las Lilas, mais pomposo e de excelente qualidade, e o El Desnivel, mais simples, não menos saboroso, e muito barato.

Se o Rubayat está fora do seu orçamento, em Buenos Aires, onde o real vale o dobro do peso, você pode se dar ao luxo de almoçar em um restaurante do mesmo grupo, em frente ao Rio da Prata, em Puerto Madero.

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Pães, bisquis e costratas para acompanhar os acepipes do Cabaña. Só erraram no pão de queijo (duro e frio)

Vale pedir o couvert, composto de um prato com tortilla ao centro, pimentões ao alho e azeite, caponata, tomates assados, mussarela de búfala, presunto cru e rúcula fresca para petiscar com os pães e crostatas. O pão de queijo foi reprovado (estava frio e duro).

Aproveite bem o couvert e peça um vinho da imensa carta do local. Optei por meia garrafa do Fabre Montmayou Malbec Mendoza, bem frutado e leve para acompanhar a carne em um dia quente. O único problema foi a demora no serviço. A garrafa chegou rapidamente, mas esperamos um bom tempo até que alguém nos servisse e a bebida ficou quente.

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Corte de costela de boi ou 'filé de brontossauro'. Conselho: divida a carne

E aqui vai o conselho mais importante que posso lhe dar sobre restaurantes em Buenos Aires: divida a carne, peça uma salada ou batatas de acompanhamento e você será feliz. Parta do princípio que os portenhos têm um espírito de grandeza. Suas avenidas são largas, os edifícios públicos grandiosos e as porções, igualmente.

Aprendemos a lição depois de pedirmos um prato de carne para cada um e sairmos rolando de lá. A tira de costela (90 pesos) mais parecia um filé de ‘brontossauro’ na frente do Dexter (ao ver o prato, o casal de norte-americanos ao lado também pediu… para dividir). O sabor estava bom, mas gostei mais do meu o bife de tira (80 pesos). Muito semelhante à picanha, a carne estava extremamente macia, saborosa e ‘ao ponto’ certo – uma das melhores que já comi. No fim das contas, pagamos 300 pesos pelo almoço, além dos 10% pelo serviço.

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Desnivel, bom e barato em San Telmo (não aceita cartão)

Uma dica importante sobre restaurantes em Buenos Aires é que muitos não aceitam ‘tarjeta’, só ‘efectivo’. Então ande com pesos, além do cartão, para garantir sua refeição. Este foi o caso do Desnivel, que valeu todos os pesos contados que tínhamos na carteira.

Localizado no bairro de San Telmo, o Desnivel é um restaurante simples, com atendimento muito simpático (o Claudio, nosso garçom manjava muito de futebol) e uma comida deliciosa. Excelente dica da Fabi Monte, que recomendo a todos.

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Boa provoleta e linguiça no ponto de entrada com pão 'tipo' francês e requeijão

Chegamos meio cedo, por volta de 20h30, para jantar antes de um show de tango, a dois quarteirões dali e uma roda de samba (é isso mesmo) animava o fim da feira de San Telmo, que rola todos os finais de semana.

Logo na entrada você encontra a imensa parrilla, uma vitrine de carnes e muitas rodelas de provolone prontos para entrarem da brasa, além de vários garçons bailando pelo ambiente simples e acolhedor para atender os clientes.

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Carnes na parrilla e rodelas de provolone prontas virarem provoletas

Além do couvert de pão francês com requeijão (no lugar da manteiga) pedimos linguiça e provoleta. A linguiça estava ótima ao molho chimichurri, perfeito para carnes, e a provoleta estava boa (o queijo podia ser um pouco mais derretido, mas valeu).

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Tira de costela do Desnivel: mais gordurosa e saborosa em relação à do Cabanã

O principal foi tira de costela, porque o Dexter decidiu fazer um comparativo. Interessante observar que o corte era diferente e a carne estava bem mais para costela (gordurosa e saborosa) do que a do Cabaña. Valeu a pena.

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Garçons bailando no atendimento aos clientes locais e alguns turistas no Desnivel

Para acompanhar pedimos meia garrafa de Norton malbec, que estaria um pouco melhor na temperatura certa, e nos divertimos falando de futebol com o garçom. O simpático Claudio, que torce pelo Independiente, finalmente deu uma boa resposta à pergunta que o Dexter não se cansou de fazer aos portenhos. Para Claudio, o Riquelme não vai sair do Boca e ir para o Corinthians.

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Depois do Desnivel, show de tango no El Viejo Almacen, em San Telmo

A conta do Desnível saiu apenas 67 pesos, uma excelente relação custo benefício para nossa balada tanguera independente. No lugar de comprarmos o pacote com transporte, jantar e show, optamos apenas pelo ingresso do show (87 reais por pessoa) em um quiosque no shopping Galerias Pacífico (Calle/Rua Florida) e jantamos no Desnível, a dois quarteirões do El Viejo Almacen, que oferece um ótimo espetáculo, incluindo duas taças de bom vinho e água.

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La Viruta: aula de tango e balada por 8 reais a entrada

Acabei me rendendo ao show depois de ter aprendido os sete passos básicos do tango no La Viruta, uma milonga no bairro de Palermo Hollywood, que vale conhecer. Por uma entrada de 16 pesos (8 reais) você pode fazer uma aula grátis de tango, praticar no baile e ainda arriscar um twist, que o DJ também rola. Mesmo assim, ainda sentimos falta de ver os profissionais dançando no palco e fomos ao show, que também valeu todos os pesos.

E por que a carne argentina é mais macia do que a brasileira? Como explicou o dono do Pobre Juan à Cecília, os bois de lá pastam em uma área plana e fazem menos esforço do que os nossos, o que mantém a carne macia. Resumindo: eles ‘pastam’ menos do que os brasileiros.

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