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Achei que já havia desistido de comer macarronada há muitos anos. Até então, minha lembrança de macarronada de domingo era acordar de ressaca, ir para a cozinha, encontrar a mesa posta com a pasta, o frango assado, a maionese de legumes e meus pais me olhando de cara feia.

Também achei que nunca fosse torcer pra Itália em uma Copa. Não que eu tenha muitos traumas da Copa de 82. Na verdade, não tenho nenhum. O que restou na minha memória foi somente um delicioso sorvete de creme e chocolate promocional, da Gelatto, vendido em uma bolinha de futebol de plástico marrom, que eu não parava de colecionar.

copa2.jpgNo último domingo, enquanto a Azurra entrava em campo, um quadrado mágico dominou a cozinha para completar o clássico da final: macarronada com bracciola. Alê, no molho, Pedro, na massa, Gi (na foto com a massa) e Deca fazendo a cobertura. Partida memorável.

Receita de família, o molho de tomates ‘de verdade’ com bracciolas recheadas de azeitonas pretas e bacon, estava espetacular – um dos melhores que já provei. A massa feita em casa com farinha de semolina e cortada na hora ficou incrivelmente leve. Barilla que se cuide.

Completando o menu campeão, saborosas batatas assadas com bacon* – receita da avó do Alê. Tutti perfectto. É uma pena que, ao contrário da macarronada da ressaca, essa não se repete todo domingo.

*Como eu tive de voltar ao mercado para trocar uma bandeja de toucinho por bacon, reforço aqui que a regra é clara: toucinho é a ‘gordura do porco, subjacente à pele, com o respectivo couro’. Bacon é a mesma coisa só que em versão defumada. E tanto ‘toucinho’ como ‘toicinho’ estão no Aurélio. Fale a gosto.

Restrições

julho 11, 2006

CarneSecaComo é bom cozinhar para os amigos (quando a comida dá certo, é claro). Mas tem uma sensação melhor: converter alguém com a sua comida.

Certa vez fui preparar um prato bem brazuca no open house do querido Felitti, autor da foto ao lado e do popular CháQuente.

Carne seca acebolada com manteiga de garrafa, purê de abóbora, couve e arroz. Um dos convidados, ninguém sabia, não comia carne seca nem por decreto.

Imagine o sofrimento de ter alguma restrição alimentar, que vem a ser justamente o prato principal de um pequeno evento? Pense na sensação de estômago vazio e desespero pensando se revela que não come aquilo nem amarrado, se alega dieta, simula um desmaio, ou então torce para aparecer um cachorropela casa pra despachar o inimigo. E o medo de passar mal após a primeira garfada diante da cozinheira ansiosa? Que gastrite.

Acho que todo mundo já passou por isso. Tive um episódio, certa vez, com figo em calda. Olhei bem pra cara daquele figo verde de compota, coloquei um pedaço na boca bravamente e… detestei. Não consegui nem engolir o comentário “Ah. Não vai dar”, soltei. Ninguém se feriu, ou melhor, ninguém me feriu.

No dia da minha comida, a meiga e doce Dani Moreira foi digna. Ficou calada, enfrentou a carne seca, comeu e… repetiu. Depois daquele dia, Moreira nunca mais deixou de comer carne seca. Não só a minha, mas carnes secas de diversas cozinhas, em PFs, restaurantes, botecos, casas de família, bares, entre outros lugares. Agora, ela se prepara para ir à Europa onde deve eliminar outras restrições alimentares, ou então, levar carne seca na bagagem.

Essa história real de conversão foi revelada ao BraunCafé na semana passada, meses após o open house. Pouco depois, Dani estava diante, é claro, de mais um PF com carne seca. Que orgulho.

A linda carne seca e a manteiga de garrafa daquele open house vêm de um lugar mágico: o Açougue e Casa do Norte Santana, que não fica na Zona Norte, mas na Bela Vista e tem muitos produtos específicos nordestinos de boa qualidade. Vende até caldo de eguia (?). Indico para todos os feitiços culinários de conversão. Será que funciona com arroz e feijão? Aguardem os próximos capítulos de ‘Restrições’.

Açougue e Casa do Norte Santana: Rua Peixoto Gomide, 72 – Bela Vista.

Feitiço: peça para o açougueiro Pedro cortar meio quilo de carne seca. Ele vai dizer que é tão macia, que você nem precisa colocar na pressão. Ignore. Lave a carne um pouco em água corrente, corte em pedaços grandes e coloque na panela de pressão com água. Quando a panela começar o ‘chique-chique’ deixe cozinhar por 20 a 30 minutos.

Retire a pressão, escorra a carne e desfie com um garfo. Se alguém aparecer na cozinha oferecendo ajuda, terceirize a função. Refogue, na manteiga de garrafa, uma cebola grande cortada em rodelas. Ponha a carne, refogue mais um pouco, coloque um punhado de salsinha picada e mande ver.

Amigo de fé

julho 6, 2006

— Você gosta de comida japonesa?
— Sim
— Opa! Conheço um japonês na Liberdade muito bom e barato… sensacional.
— Maravilha! E como se chama?
— Ah… não me lembro. Estava escrito naqueles símbolos sabe?
— Sei.
— Fui com uns amigos e o sashimi deles é fantástico.
— Bacana… então onde fica exatamente?
— É na Liberdade… numa daquelas ruas lá. Quando eu for te dou um toque. Você tem que conhecer esse japa!

Ah… o velho conto do restaurante japonês na Liberdade que é um achado. Acredito que já ouvi essa história pelo menos umas oito vezes. Até hoje não conheci o japonês escondidinho em um beco do tipo “Além da Imaginação” com seu nome escrito em kanji, katakana ou hiragana, onde rodízio é barato e sensacional.

Conheci sim, na semana passada, um restaurante tradicional japonês, que fica na Liberdade, mas não está escondido, que exibe seu nome ocidental em um amplo letreiro e que oferece um rodízio a 32 reais, com mais sashimi de excelente qualidade do que qualquer outra coisa.

Sem desmerecer os achados, que certamente são ótimos e ainda quero conhecer, o Sushi Yoshi, ou simplesmente AMIGO, é um pequeno restaurante típico japonês, na Rua da Liberdade, onde você tira os sapatos, toma uma Original e escolhe entre os pratos a la carte, o rodízio e o festival, que tem mais pratos quentes – indicado para o perfil ‘Adoro comida japonesa! Só não como peixe cru’.

O rodízio segue o estilo ‘Vamos ao que interessa’ – missoshiru (indicado para preparar o estômago antes do peixe), guioza no vapor (e não frito pelamordedeus) e shimeji na manteiga. E então, rodeados por um cenário de salsinhas japonesas e nabos chegam variados sushis e sahimis de salmão, atum, tainha, atum grelhado e meca, o suave ‘atum branco’. Tudo muito saboroso.

No sashimi, o meca confunde-se com o peixe prego, “mas este é perigoso”, comentou o senhor Yoshizumi atrás de seu balcão de sushiman, enquanto cortava as cenouras para os próximos clientes atendidos até 3 da manhã. O trocadilho aqui é inevitável: Amigo é… coisa pra se guardar.

AMIGO (Sushi Yoshi) – Rua da Liberdade, 607. Tel (11) 3277-1616. Em frente à Casa de Portugal, na esquina com a Barão de Iguape.

Qual é o seu conceito de liberdade? O da choperia que leva esse nome é bem amplo. Bar (chope Brahma), karaokê, restaurante japonês, snooker e churrascaria. Até aí, tudo bem, Então… vamos entrar.A Liberdade se abre em portas vermelhas almofadadas, com espelhos e detalhes em dourado. Ao cruzá-las você passa por um corredor com sofás e já observa, a sua frente, profissionais do karaokê cantando Besame Mucho em japonês. Continue…

Agora você entrará em um amplo galpão. À direita está a cozinha de onde saem os grelhados, assim como o aroma que marcará sua noite de diversão, suas roupas e seus cabelos…

Ao fundo do galpão seis mesas de sinuca lhe esperam. Ao redor, televisores mostram as letras do Besame Mucho em japonês, assim como os animados vídeos do karaokê. No teto se espalham, de forma desordenada, milhares de luminárias e bolas coloridas. Nas paredes, sequências de pôsteres com temas igualmente diversificados: Massas, Beatles, Carros, Urso, Disco Voador etc. Na janela falsa pousa uma garça de plástico rodeada por uma vegetação sintética.

O conceito se estende aos frequentadores. Membros da comunidade, descolados, moças que atuam na noite, deslocados, divertidos e por aí vai. Quem põe ordem nessa liberdade toda é uma japonesa baixinha e simpática que gosta de ser chamada de “Mama”. É com ela que você deve reservar sua mesa, pedir um shimeji na manteiga ou uma picanha, tomar muitos chopes, jogar sinuca, cantar “Strangers in the Night” ou o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1989 (“Liberdade, Liberdade! Abre as asas sobre nós”) olhando para a garça de plástico e, de fato, ser livre…

Choperia Liberdade: Rua Glória, 523. Tel: (11) 3207-8783.

O boi alegre

julho 5, 2006

Recentemente li uma matéria na Folha de São Paulo sobre um hambúrguer lançado pelo restaurante Estik, em Madri, que custa 250 reais – não tem vírgula… são 250 pilas mesmo. A facada se deve ao boi Kobe – originário da região de Kobe, no Japão, conforme explica o leitor Marcus no comentário abaixo – e é um animal feliz, ou talvez seja a última linha da encarnação de alguém que foi quase bacana.

Segundo a matéria, que diz que o boi vem da Nova Zelândia, o Kobe é tratado com música clássica, massagem e cerveja (sim cerveja) para ficar bem tenro e saboroso antes de virar filé.

É fato que cerveja amacia a carne. Comprove com a Carne de Panela ao molho de Malzibier do Dona Bêga (atendimento familiar, comida caseira muito boa e criativa). Agora… dar a cerveja direto para o boi é no mínimo genial. Imaginem um boi tomando Guinness e ouvindo rock´n´roll no que ia dar?

Boi, guinness, rock, hamburguer… ah sim… ia dar na Casa Belfiori. Lá o preço é amigo, tem cervejas bacanas e, é claro, o drop kick (hamburguer com gorgonzola e bacon, que acompanha batatas meia lua estilo cantina). O famoso paredão de carne só é servido na versão 2.0 do antigo pub, o Clube Belfiori, que tem rock´n´roll ao vivo. Cuidado! Todos que comeram se viciaram…

Clube Belfiori (CB): Rua Brigadeiro Galvão, 871 – Barra Funda. Tel: (11) 3666-8971
Dona Bêga: Avenida Aratãs, 791 – Moema. Tel: (11) 5561-4986