Um, dois, três… pochê!
abril 4, 2015

Essa dica preciosa da amiga Kay Gentile vai para quem gosta de ovo pochê prático e sem erro. Em uma tarde que passamos juntas, enquanto preparava as maravilhosas tartes da Depois de Paris, Kay compartilhou comigo essa técnica das trouxinhas que aprendeu na cozinha do Senac. É só alegria. Vamos nessa:

Forre uma xícara de chá com uma folha de papel filme, deixando sobrar um pouco nas bordas. O papel filme gruda mesmo na xícara, mas vá com jeitinho, que vai dar certo.
Unte o papel filme na xícara com algumas gotinhas de azeite (ou com manteiga em temperatura ambiente, se preferir).

Quebre o ovo na xícara e tempere com sal. Pimenta do reino moída na hora e ervas também vão bem.

Junte as pontas do plástico filme, dê uma voltinha para fechar bem a trouxinha e amarre com um filete de papel filme.

O legal dessa técnica é que você pode preparar vários pochês de uma vez só. “É assim que as cozinhas profissionais fazem na hora do brunch”, conta Kay.

Em uma panela com água fervente (não precisa de vinagre), deposite cuidadosamente a trouxinha, deixando a ponta do plástico filme para fora, na lateral da panela.
Após quatro minutos de fervura, retire a trouxinha da água e a coloque sobre uma colher para ajudar a servir.
Corte a ponta do saquinho com cuidado e coloque seu pochê delicadamente sobre uma torrada ou um prato de lentilha cozida, ou molho de tomates frescos, bacon crocante… hummm… e seja feliz!
Giro d’Italia: Cerveja artesanal e almoço desconectado
março 10, 2015
Em 14 dias de aventuras pelo Norte da Itália, você come muita massa e bebe muito vinho. É sensacional, claro. Mas na última noite, depois de pirar na megaloja do Eataly, em Milão, e pegar a maior chuva da viagem, dei de cara com um bar da cervejaria Baladin e aí foi só alegria.
Do cardápio, mezzo italiano mezzo alemão, a escolha foi uma porção de apetitosas salsichas variadas (a de cordeiro estava sensacional) com cebola roxa caramelizada e fritas crocantes pra acompanhar. Harmonia perfeita com a Isaac, a cerveja da qual eu não queria me despedir. Depois, descobri que ela é vendida em São Paulo. É cara, mas dá pra matar a saudade, de vez em quando.
No dia seguinte, de malas prontas para ir embora, ainda rolou um passeio na catedral de Milão (belíssimo) e o almoço de despedida no Rifugio del Ghiottone, um restaurante simples e honesto, que recebe os trabalhadores das redondezas. O dono, um senhor alto e simpático, circula pelas mesas conversando com os fregueses e aparece em milhares de fotos enquadradas nas paredes com clientes ilustres, aparentemente famosos locais, que visitam seu restaurante.
Com um menu executivo completo (entrada, principal, sobremesa e café) por 13 euros, o restaurante atrai as pessoas que trabalham na área. E enquanto eu esperava o meu penne com aspargos e tomates (leve e delicioso), observei um comportamento interessante: nas duas mesas com grupos de quatro e cinco pessoas, ao meu lado, nada de celular. Era o intervalo de trabalho e nenhum aparelho estava visível sobre a mesa. Ninguém largou o talher e o bate-papo nem para dar uma espiadinha em algum “whatsapp” da vida.
Bom… guardei meu aparelho na hora e me concentrei no prato, um levissimo penne com molho de aspargos e tomates, e saí de lá levando mais uma importante lição dos italianos sobre apreciar la dolce vita.
Baladin Milano
Via Solferino, 56 (Porta Nuova) – Milão, Itália
Eataly
Piazza XXV Aprile, 10 – Milão, Itália
Il Rifugio del Ghiottone
Viale Monte Grappa, 2 – Milão, Itália
Giro d’Italia: Lições de felicidade em Torino
janeiro 25, 2015
O apartamento mais legal que encontramos pelo Air BnB na viagem à Itália foi o da querida Valentina, na suntuosa Torino. Em um prédio bem antigo, que deve ter uns 200 anos, ela reformou todo o apê com estilo, preservando um belo ladrilho e arcos de tijolos originais. A sala, sem TV, tinha muitos CDs, livros e uma moto antiga, tipo Harley, como decoração.
Na cozinha toda equipada, encontrei diversas receitas com ovos penduradas entre os utensílios e uma mesa para pensar na vida. O quadro em frente, trazia a reflexão em um cartãozinho vermelho: “Pelo menos uma hora por dia, você precisa ser feliz”. Segui o conselho e preparei minha massa favorita: spaghetti à carbonara, com ovos e pancetta comprados no mercadinho do bairro.
Logo ao lado do edifício estava o Mercato di Porta Palazzo, um misto de feira da pechincha e feira livre enorme, onde vi uns cogumelos tão grandes que pareciam enfeites de jardim. Pena que choveu muito, todos os dias, e não deu pra aproveitar muita coisa da área, que era tipo um Brás de Torino.
Em Torino também fiz minha primeira visita a uma loja da rede Eataly, um supermercado da gastronomia italiana, que deve chegar a São Paulo este ano, com uma loja na região do Itaim. Imagina escolher uma massa nesse lugar? É de enlouquecer.
Depois de pirar no Eataly, fiz um jantar para dois: filé com spaghetti all’arrabbiata, pão caseiro de centeio e vinhos do Piemonte para acompanhar (meia garrafa de Gavi, delicioso branco da região, e meia de Dolcetto D’Alba, da cidade de Treiso). Também teve entrada com abobrinha redonda, que foi refogada no azeite e servida com parmesão regiano e pimenta moída na hora. Ficou show.
Slow Food
Aproveitamos a viagem para conhecer a cidade de Bra, na província de Cuneo, onde nasceu o movimento Slow Food. E foi lá, na modesta Osteria Del Chiosco ao lado da estação de trem, que provei a melhor massa da viagem: o ravioli “plin”.
O dono do café beliscava o braço dizendo: “Plin! Assim… entende?”. Cheguei a achar que era recheado com pele ou pururuca, mas o belisco é só um jeito de fechar o ravioli com recheio de vitelo, servido na manteiga com sálvia.
Simples, perfeito e barato (7 euros), com uma taça de vinho tinto, o “plin” foi uma beliscada pra lembrar daquela mensagem da cozinha da Valentina. Feliz 2015!
Eataly
Via Nizza, 230/14, 10126 – Torino, Itália
Tel.: +39 011 1950 6801
L’Osteria del Chiosco
Piazza Roma, 35 – Bra, Itália
Tel.: +39 0172 41 2181
Mercato di Porta Palazzo
Piazza della Repubblica, 10.152 – Torino, Itália
Giro d’Italia: Se essa rua de Bologna fosse minha…
dezembro 26, 2014
Quando a chuva deu uma trégua fomos passear pelo centro histórico de Bologna, na Piazza del Netuno, na Biblioteca Salaborsa (lugar belíssimo onde se podem ver escavações de ruínas do século VII a.C. pelo piso de vidro) e então resolvemos espiar uma rua estreita do outro lado praça: “Via Pescherie Vecchie”.
O cenário era encantador. Bancas de verduras e legumes coloridos de um lado, mesinhas com taças de vinho e antepastos do outro e pessoas circulando em uma sequência de antigos empórios e salumerias com o melhor que a Emilia Romagna tem a oferecer. Um verdadeiro museu gastronômico a céu aberto para encher os olhos e a boca d’agua.
É nesta rua que se encontra o Mercato di Mezzo, o mais antigo da cidade. O galpão da era medieval que fazia parte do antigo mercado de Bologna, foi reformado e reinaugurado pela rede Eataly, em abril deste ano. No primeiro andar você encontra diversos fornecedores de comidinhas, bebidas e guloseimas a preços amigáveis para degustar em mesas comunitárias.
Recomendo os petiscos do mar da Pescheria del Pavaglione, onde provei o espetinho de lula com camarão e o sanduba de polvo e escarola em pão preto feito com tinta de lula. Foi lá que descobri a Isaac, da cervejaria artesanal Baladin, e me apaixonei pra sempre.
Na saída do mercado vale dar uma espiada na vizinha Salumeria Simoni. Dá vontade de ficar lá admirando os salames, mortadelas, prosciuttos e queijos lindamente expostos atrás do balcão da movimentada loja de esquina.

Clientes na fila da Salumeria Simoni. Vale apreciar a paisagem de salames e prosciuttos atrás do balcão
E se quiser comprar algo bem tradicional para fazer na sua cozinha de viagem, prove o tortellini fresco, que você encontra em todos os empórios, mas vale comparar preços. Comprei 250 gramas, para duas pessoas, por 5 euros. Os bolonheses o preparam cozido no caldo de galinha, mas resolvi improvisar uma versão na manteiga com parmesão. Que delícia.
Outra dica para quem é chegado nas compras gastronômicas é o Mercato delle Erbe, que também é próximo à Piazza Netuno. Vale caminhar tranquilamente por entre as bancas de frutas e verduras, cercadas de preciosidades à venda nos empórios.
Mercato di Mezzo
Via Pescherie Vecchie, 14 – Bologna, Itália
+39 051 227798
www.facebook.com/pages/Mercato-di-Mezzo/664060596993131
Mercato delle Erbe
Via Ugo Bassi, 23 – Bologna, Itália
+39 051 230186
www.mercatodelleerbe.it/
Salumeria Simoni
Via Drapperie, 5/2a – Bologna, Itália
http://www.salumeriasimoni.it/
Revelações de um “Jantar Secreto”
dezembro 14, 2014
Imagine que você resolveu sair para jantar à dois, assim, sem reservar, em um restaurante que está bombando na cidade, uma quinta-feira chuvosa depois de um temporal daqueles. E depois do mau-humor da espera, do vinho e da comida talvez nem tão incrível assim, chega a conta nada romântica. Pavor? Rebobine…
Agora você está na porta de uma casa na Aclimação. O endereço foi revelado na noite anterior. Você não sabe o que vai comer, beber ou quem vai sentar-se ao seu lado para te acompanhar na aventura. Na sala de estar, uma charmosa mesa à luz de velas te espera para revelar deliciosos sabores em um menu completo e autêntico, de “memórias gustativas”, cuidadosamente harmonizado com cervejas importadas. O cenário melhorou né? Então bem-vindo ao “Jantar Secreto”.
Naquela quinta-feira estávamos em cinco. Eu, um casal de amigos do coração, e outro jovem e simpático casal, que ficou ouvindo todas as nossas histórias de viagens pela Itália.
A querida sommelier, Larissa Januário, deixou todos à vontade com sua simpatia e espontaneidade enquanto nos apresentava a primeira cerveja: uma Ballast Point Pale Ale dourada e aromática, feita em San Diego (EUA). Cozinheira de mão cheia, Larissa veio “du Goiás”, ama pequi e também sabe fazer cerveja, mas não quer se arriscar a servir suas criações. “Se alguém disser que não gostou da minha cerveja, não vou suportar”, confessou dando risada.
Começamos com um petisco alemão: canapés de linguiça Blumenau fresca com mostarda escura, uma fina fatia de pepino e cebolinhas para refrescar, em pão de milho torradinho. O chef, Gustavo Rigueiral, apaixonado por novos sabores e ingredientes frescos, contou que a ideia surgiu com a Larissa durante um jogo da Copa. O resultado do jogo com a Alemanha a gente não comenta, mas o petisco era saboroso e leve. E quando faltava aquele último canapé no prato, naquele momento “vai que é tua”, veio uma segunda rodada. Um refil de alegria.
A entrada e sua cerveja acompanhante foram um dos pontos altos do jantar, na minha opinião. Lá estava eu falando da cervejaria Baladin, pela qual me apaixonei na Itália, quando Larissa sai da cozinha com uma garrafa de Baladin Wayan nas mãos. “Não acredito!”, exclamei. Depois de provar a cerveja artesanal com especiarias fiquei mais emocionada ainda.

O chef Gustavo explicando a entrada incrível do jantar e a sommelier Larissa que me surpreendeu com a cerveja italiana Baladin Wayan
Da memória de infância, em Santos, e do cuscus paulista da esposa, Gustavo tirou um casamento de casquinha de siri e cuscus cremoso com brotinhos de coentro e vinagrete de cebola roxa com pimenta biquinho. Era pra comer de colher, literalmente. O ácido e crocante da cebola mesclado à suavidade do siri no cremoso cuscus-casquinha, com brotinhos delicados por cima eram tudo de bom. Equilibrado, reconfortante e perfeito com a explosão de sabores da Wayan.
No prato principal, mais revelações. Já ouviu falar de “flat iron”? Pouca gente conhece esse corte dianteiro do boi porque que a maioria dos açougues não oferece, mas vale procurar em casas especializadas (o Paladar escreveu sobre o tema em outubro. Veja aqui). O prato veio embalado pela floral Mermaid’s Red, red ale californiana da Coronado Brewing.

Entrada triunfal: casamento de casquinha de siri e cuscus paulista com vinagrete de cebola roxa, pimenta biquinho e brotos de coentro
Para acompanhar o filé bem macio e de sabor marcante, foi servido um leve purê de milho com folhinhas de cambuquira e um molho com pequi. E aí o Gustavo revelou que torcia o nariz para o fruto e chegava a sair de casa quando a Larissa prepara algum prato com o ingrediente. Mas um belo dia, o chef descobriu que pequi vai bem com ingredientes lácteos e aí surgiu uma nova chance para o pequi. A gente adorou experimentar. Não sobrou um pedacinho de filé no prato.

A red ale californiana Red Mermaid’s acompanhando o “iron flat”, um filé especial com purê de milho e molho de pequi
Por fim, quando você acha que já descobriu tudo do jantar secreto, vem a sobremesa. Primeiro, todos recebem marmitinhas de alumínio fechadas e suas taças são servidas com a trappiste Gregorius, escura e potente (9,8% de grau alcóolico). E então o chef dá “ok” para abrirmos as marmitas e descobrirmos a rabanada de brioche, sua versão da memória natalina, com calda de creme e cumaru, a baunilha da Amazônia. Enquanto servia a calda em um bule, Gustavo falava da manteiga de pistache, que você vai descobrindo quando passa a colher no fundo da marmita. E a cerveja dos monges só intensifica os sabores. O resultado é divino e você não quer que acabe.
Aproveito para revelar que já conheço dos anfitriões há um bom tempo. A Larissa, das coberturas de tecnologia e depois no mundo dos blogueiros. Ela com o Sem Medida, que virou um espaço on-line de gastronomia, e depois o Gustavo com o Chef-à-Porter, nome de sua empresa de catering, tortas e pães. Tempos depois, a gente se encontrou na rua e descobri que eles tinham se mudado para o meu prédio. Adorava subir no nono andar pra ficar batendo papo com esses vizinhos. Era raro sair de lá sem uma marmitinha.
Quando soube do “Jantar Secreto”, que já teve 26 edições neste ano de estreia, já vibrei com a ideia. E ainda tive a felicidade de conhecer a cozinha autoral do Gustavo e o lado sommelier da Lara com os amigos Alê e Fabi, que também conhecem o casal de longa data. Sim. O mundo é um ovo de codorna bem temperado.
A experiência toda, com harmonização de cervejas, custa R$ 130. Sem as cervejas sai por R$ 90. As reservas são feitas pela plataforma Food Pass em algumas datas por mês (fique de olho). Se preferir levar vinho, a rolha não é cobrada, e se tiver restrições alimentares, o chef adapta o menu secreto para você. Duvido que, depois de tudo isso, você queira volta à cena do primeiro parágrafo.























